Seja gentil com a sua voz


Este é um texto que escrevi, em Abril de 2011, para o II Encontro de Enfermagem de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Instituto Português de Oncologia de Coimbra (IPOC). Escrevi-o, curiosamente, no dia em que completei 10 anos ao serviço do IPOC (trabalhei lá 16 anos).


Tem tudo a ver com este Dia Mundial da Voz. Partilho-o acompanhado deste vídeo que a Sociedade Portuguesa de Terapia da Fala lançou hoje - muitos parabéns, colegas.

Segue, assim como foi escrito, por partes.


Respeitosa Repetição

É uma expressão feliz na ilustração da nossa labuta de dia-após-dia. É o título de um poema de 3 versos de um amigo, que nos representa na construção de se ser humano neste nosso mundo que embora tão belo consegue ser tão terrivelmente seco e tirano.


A Pessoa, a Família e o Terapeuta da Fala – Actores

Não é de forma distraída que me refero ao doente enquanto A pessoa. A minha intenção é tão-só a da simplificação e de aproximação de nós para nós, pois somos todos actores neste palco em que “A doença é o lado sombrio da vida, uma cidadania bem pesada. Ao nascer, todos nós adquirimos uma dupla cidadania: A do reino da saúde e a do reino da doença.” (Susan Sontag). Actores com papéis diferentes consoante o cenário bem sei, ainda assim com uma herança comum no ser-se pessoa.

Ao referir-me a estes actores, a minha intenção é celebrar que, sim, temos em conta o doente e a sua família, que somos nós também: pois trocamos de papéis na hora mais inesperada – e nunca nos deveríamos esquecer disso.


Otorrinolaringologia/ Cirurgia de Cabeça e Pescoço (CCP) Sem esquecer que a cirurgia se trata de uma solução para a sobrevivência, esta é aqui abordada num papel ingrato: o de indutor de ausência/ limitações da voz, logo, da comunicação e/ou da alimentação.

Os terapeutas da fala surgem nos hospitais de valência oncológica em Otorrinolaringologia com a laringectomia total, alargando-se à laringectomia supraglótica, cirurgia da cavidade oral, tiroidectomia total, etc. Sendo as suas intervenções em perturbações da comunicação, nomeadamente afonia e disfonia, perturbações da motricidade orofacial e da deglutição, dentro do grande grupo das disfagias.

Em oncologia é má-prática não referir sempre e inequivocamente a equipa. No IPO de Coimbra tenho a felicidade de trabalhar lado-a-lado com profissionais com quem aprendo muito, partilhando saberes e limitações – afinal, o ponto de partida para a promoção dos princípios da bioética da Beneficiência e da Não-Maleficiência.


Impacto

Apresentados que estão os actores deste tema, quero contar-vos uma coisa: quando fui convidada para fazer parte desta mesa sob o tema IMPACTO, para falar da minha experiência enquanto terapeuta da fala, a minha memória voou de imediato para a narrativa de determinada pessoa sujeita a laringectomia total. Chamemos-lhe A.

Certo dia, no final de uma sessão, A. entregou-me um conjunto de cerca de 30 folhas com um título em que se lia “diário de [nome]”. Entregou-me as folhas para a mão e eu, percebendo que era uma oferta mas, ainda assim, com o pudor de perceber que se tratava de um diário. A. disse-me “é seu, quero que me leia”. E eu li-o. Nessa noite, foi a minha leitura de cabeceira. Senti tão intensamente aquela narrativa, o arrebatamento daquela vida, eu estava a ler os pensamentos do “meu” doente escritos na primeira pessoa e no conforto do seu meio. Pensei nos meus professores de Alcoitão, quando me falavam no ser biopsicossocial, pensei nos nossos processos clínicos – quando lemos “dado apoio emocional ao doente (que surtiu efeito)”. Questionei-me. Não foi, obviamente, a primeira vez que me questionei, mas foi a primeira vez que a narrativa do “meu” doente, de dentro da casa dele, entrou pela minha casa adentro.

Não farei considerações acerca do que se encontra num diário, não deixo de lembrar, no entanto, que, além dos pensamentos íntimos, estão a descrição da vida mundana, onde me incluo: «Hoje fui à terapia da fala pela primeira vez. (…)».

Após ter-lhe agradecido a oferta generosa, A. trouxe-me mais material para ler, nomeadamente um documento imenso com discriminação de todos os acontecimentos e intervenientes na sua caminhada no cancro da laringe.

Mais tarde, pedi-lhe colaboração, precisava de vídeo-gravar uma pessoa sujeita a laringectomia total para numa formação de estomaterapia para enfermeiros. Gravámos numa 3ªfeira e o A. faleceu num acidente de viação na 6ªfeira seguinte - a caminho do casamento do filho. A ironia: sobreviver-se a um cancro de laringe para se morrer num acidente de viação. Chamei IMPACTO à história de A., pelo que não poderia deixar de falar nele hoje, aqui.


Amor

Ficar-se, ou ser-se temporariamente limitado na comunicação e/ou na alimentação não é um acontecimento único e isolado na narrativa da pessoa. A vida continua para lá da doença e, com ela, as crenças e os valores da pessoa, os seus projectos e os seus compromissos prévios à doença.

Enquanto terapeuta da fala, posso apenas dizer-vos que são processos tantas vezes longos e dolorosos emocional e fisicamente. São processos que exigem colaboração e confiança incondicionais da pessoa e da sua família para conseguir atingir níveis de funcionalidade satisfatórios.

Os dias passam, neste lugar onde, por vezes, sentimos que apenas os erros se repetem. Insistimos, como Beckett, falhando, falhando de novo, falhando melhor. Não creio que alguém saia incólume do mundo da oncologia.

Talvez o que levamos daqui seja mesmo essa coisa cujo nome, por vezes, nos deixa embaraçados: o amor.

Talvez seja esse o impacto, o do amor. _______________________________________________

Cuidem-se, cuidem da Vossa voz. Não deixem que a voz fique para último, no meio dos afazeres da vida. Sigam este roteiro de sinais de alerta e cuidados da Associação Portuguesa de Terapeutas da Fala. Sejam gentis com a Vossa voz. Feliz Dia Mundial da Voz a todos.

Com um agradecimento especial e emocionado a todos e todas que me têm deixado fazer parte da sua história de voz.

Saudações terapêuticas,

Sandra Cruz

terapeuta da fala, Bem Dita Terapia, Coimbra

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